181 anos de Fotografia

Por: Roberto Luiz Svolenski, professor nos cursos de Comunicação da Unisul

Era 19 de agosto, tarde de uma segunda-feira, por volta das 15 horas do ano de 1839 que o governo francês anuncia publicamente um “presente para o mundo”. Todos os lugares já estavam reservados na sessão da Academia Francesa de Ciências. Dezenas de pessoas que não conseguiram entrar para presenciar o anúncio se aglomeraram no pátio aguardando a notícia. A partir dessa data, temos o início daquilo que hoje não foge ao nosso olhar, a fotografia.

Mas em 6 de janeiro desse mesmo ano a Academia anuncia a invenção de um aparelho capaz de registrar uma imagem em uma câmera escura chamada de Daguerreótipo. “Paris, 6 de janeiro de 1839. Temos muito prazer em anunciar uma importante descoberta feita por M. Daguerre, o célebre pintor do Diorama. Esta descoberta parece um prodígio. Ela desconcerta todas as teorias da ciência em luz e óptica e, se confirmada, promete fazer uma revolução nas artes do design.” (La Gazette de France, 1839).

Somente meses depois da aquisição da patente do processo fotográfico em troca de uma pensão vitalícia para Daguerre e o filho de Niépce, o governo francês declara que a invenção de Louis-Jacques-Mandé Daguerre (1787-1851) e Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) é um “presente gratuito para o mundo” no dia 19 de agosto de 1839. Data oficializada como o dia Internacional da Fotografia. Porém, Niépce já havia iniciado os experimentos com o registro da imagem utilizando diversos meios e é dele a primeira fotografia que sobreviveu ao tempo, usando uma câmera escura capturou a imagem tirada da janela de seu ateliê, em 1826, no andar superior de sua casa de campo em Le Gras. E foi em 1829 que Niépce se associa a Daguerre para continuar as pesquisas sobre a produção da imagem. Considerada a primeira fotografia a retratar pessoas, Boulevard du Temple foi realizada em 1838 por Daguerre. A imagem possui um homem quase imperceptível no canto inferior esquerdo, e devido a longa exposição de aproximadamente 10 minutos, não possui registro de outras pessoas paradas na rua, apenas esse homem parado provavelmente engraxando os sapatos.  

Apesar da comprovação de que a fotografia foi “inventada” por esses pesquisadores, é mais comum associar a fotografia ao nome de Daguerre. Na época de sua invenção, os daguerreótipos serviam apenas para fotografias de paisagens, pois a exposição a qual deveriam se submeter para impressionar suas lentas chapas chegavam a pouco mais de 15 minutos.

Enquanto na Europa a fotografia estava sendo “criada”, o francês Antoine Hercule Romuald Florence (1804-1879), mais conhecido como Hercule Florence, que chegou ao Brasil em 1824, desenvolve um processo fotográfico em 1833 ao qual ele chama de photographie (fotografia). Florence era desenhista, tipógrafo e naturalista e participou da Expedição Langsdorff entre os anos de 1825 e 1829.Mas foi entre os anos de 1972 e 1976 que o professor, fotógrafo e pesquisador brasileiro Boris Kossoy conseguiu o reconhecimento e contribuição de Florence para a história da fotografia. A partir das pesquisas de Kossoy é que Florence se torna conhecido internacionalmente com a publicação do livro “Hercule Florence, 1833: a Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil” em 1980. Segundo Kossoy (2018), “Hercule Florence desenvolveu, a partir de 1833 na Vila de São Carlos (Campinas) seu processo de “impressão” sobre papeis fotossensíveis (cloreto de prata e cloreto de ouro), pela ação da luz; a seguir descobriu um meio de fixar essas imagens com amônia.  Do ponto de vista técnico e científico foi o primeiro, dentre os demais inventores, a tornar permanente uma imagem fotográfica. Além disso, deve-se a ele o emprego, pela primeira vez na história, do termo photographie. O vocábulo photography só seria usado pela primeira vez na Europa em 1839, introduzido pelo cientista inglês John Herschel.”

De acordo com o Dicionário Etimológico, que investiga a origem das palavras e expressões, o termo Fotografia tem sua origem no grego phosgraphein, que significa “registrar a luz”, “marcar a luz” ou ainda “desenhar na luz”. Essa palavra é formada a partir da união de dois elementos phos ou photo, que significa “luz”, e graphein, que quer dizer “marcar”, “desenhar” ou “registrar”. Compreender o significado da palavra ajuda a entender como as imagens são produzidas, ou seja, a partir da exposição de algo à luz e frente a uma câmera com filmes fotossensíveis ou sensores digitais, é que temos uma fotografia.

Seis meses após o anúncio pela Academia Francesa, o francês Louis Compte (1798 – 1868) apresenta o daguerreótipo a Dom Pedro II, que na época tinha 14 anos de idade. “Foi o abade Compte quem fez a experiência: de hum dos viajantes que se acha a bordo da corveta franceza l’Orientale, o qual trouxe consigo o engenhoso instrumento de Daguerre, por causa da facilidade com que por meio dele se obtém a representação dos objetos de que se deseja conservar a imagem.” (Jornal do Commercio, 17 de Janeiro de 1840). Em 1842 no Jornal do Commercio, já era possível ver as ofertas de trabalho com o daguerreótipo em meio aos anúncios de venda e aluguel de amas de leite e de escravos fugidios.

Dom Pedro II foi o primeiro brasileiro a possuir um daguerreotipo e introduz a técnica de reprodução no Brasil. Devido ao entusiasmo de Dom Pedro II com a fotografia, ele envolve-se na condução dos projetos da Academia Imperial de Belas Artes (AIBA), como parte de fortalecimento da monarquia, além de incentivar outros pioneiros da fotografia como Marc Ferrez (1843-1923), Joaquim José Insley Pacheco (1830-1912) e Revert Henrique Klumb (1830-1886).

Nomeado como fotógrafo oficial da Marinha Imperial, Ferrez é um dos principais nomes da fotografia brasileira por divulgar o país no exterior e retratar um Brasil em transformação, criando uma iconografia histórica com fotos de índios, escravos, fazendas, praias e praças por onde andou.

Atualmente a fotografia é tão importante para nós que é difícil pensar em um mundo sem ela. As fotografias estão sempre presentes numa tentativa de registrar a “realidade”. Porém, a fotografia registra o “isso foi” conforme nos apresenta Roland Barthes (1984). Somos bombardeados por imagens todos os dias vindas de diversos lugares como a publicidade, o jornalismo e principalmente os meios digitais.

Nas palavras de um ícone da fotografia, Henri Cartier-Bresson, “a fotografia não mudou desde a sua origem, exceto nos seus aspectos técnicos, o que para mim não constitui uma preocupação maior.” Ou seja, não importa o suporte escolhido para se fazer esse registro, mas sim seu conteúdo e sua linguagem. Essa sensação de compreender seu conteúdo e a história que ela nos trás na forma de rememoração faz com que a fotografia continue sendo importante para a humanidade.

Vivemos fotografia, para todos os lados que olhamos vemos fotografias codificadas em diversos gêneros. De uma forma geral, a experiência da fotografia geralmente está ligada à técnica e ao equipamento, mas dificilmente experimentamos de forma abstrata. Fotografias são manipuláveis, desde o tema a ser enquadrado até o momento de uma pós-produção para o “melhoramento” ou “apagamento” de ruídos na imagem. Segundo o poeta e professor David Levi Strauss, as “imagens fotográficas podem ser alteradas e manipuladas de várias maneiras para mudar seu significado” (STRAUSS, 2011). Com esse aparecimento da tecnologia digital, muitas imagens são criadas para parecerem fotografias, como no caso da modelo Shudu Gram que foi produzida digitalmente pelo fotógrafo Cameron-James Wilson em 2017 e desde 2016, Lil Miquela, a modelo digital “nasce” para ser uma influenciadora digital, tendo como nacionalidade brasileira, espanhola e norte americana.

Sebastião Salgado (1944-), considerado um dos maiores fotógrafos brasileiro, disse certa vez: “Existe uma corrente que diz que a fotografia é objetiva, representa uma realidade, nem mais nem menos. Ela é imparcial e mostra a realidade total … Não é verdade! Isto é a maior mentira do mundo. Você não fotografa com a sua máquina. É a coisa mais subjetiva que existe. Você fotografa com toda a sua cultura, com os condicionamentos ideológicos. Você aumenta, diminui, deforma, deixa de mostrar. A fotografia é uma maneira de viver, de continuar o trabalho social e ideológico.”

Para fazer boas fotografias, o conhecimento técnico é importante, mas não é o principal. E se você se interessa por fotografia, verá que a parte técnica é simples e fácil de aprender e que com um pouco de prática esta técnica fica automática. Mas é a capacidade de ver com imaginação, criatividade e pesquisa, que faz do fotógrafo um verdadeiro investigador da imagem. Viva a fotografia!

Roberto Luiz Svolenski, é professor nos cursos de Comunicação da Unisul.
Graduado em Artes Visuais, especialista em Cultura e Criação, Mestre em Ciências da Linguagem e Doutorando em Ciências da Linguagem na Unisul. Leciona nas disciplinas de Fotografia, Produtos e Projetos em Criação, Produção Visual e Produção Audiovisual e Multimídia, dentre outras.

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