A morte como imagem da vida

Por Heloisa Juncklaus Preis Moraes, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem. Líder do Grupo de Pesquisas do Imaginário e Cotidiano.

Se temos uma certeza na vida é a de que vamos morrer. Quando “for chegada a hora”, partimos. Os ditos populares expressam um postulado teórico. Nos estudos da Antropologia do Imaginário, a Morte e, por consequência, o Tempo (que nos coloca na linha cronológica cada vez mais próximos daquela) são origens das atitudes imaginativas. O Imaginário é um conjunto relacional de imagens, bem como nossa capacidade de forjá-las, que tem potência organizadora de nossas vidas, dando forma e sentido, simbolicamente, a ações, sentimentos, pensamentos, visões de mundo.

Os modos pelos quais lidamos com a certeza/medo da Morte e com a angústia humana do passar do tempo marcam nossa narrativa de vida, ou seja, dão suporte à arrumação das complexas estruturas de imagens, formando o que chamamos de trajeto antropológico. A morte, por assim dizer, justifica o universo mítico-simbólico, estruturando nosso imaginário, ainda que não nos demos conta disso.

Em qualquer tempo histórico a morte é um semblante da vida individual e social, que pulsa a ser simbolizada. E este processo passa pela cultura, história e religião. Enquanto âncora de uma estruturação do imaginário é recorrente, tanto mais pregnante e ritualizada quanto o sentido cultural lhe dê força. Morrer é um fenômeno biológico, mas a Morte ganha um imperativo cósmico-social. O fato é que ela orquestra nossas vidas. Seja pelo enfrentamento do medo provocado, com atitudes heroicas, seja pela eufemização, buscamos nos afastar ou nos precaver da “tal hora”. A partir daí, travamos um posicionamento em relação à vida, aos outros e a nós mesmo.

Ao nos aproximarmos do Dia da Almas, ou Finados, o tema ganha um sentido social mais intenso. Algumas práticas ligando à memória do corpo, outras, que nos lembram não só de quem partiu, mas permitem a reflexão sobre a própria vida, em andamento. A morte tem capacidade de nos colocar frente às nossas escolhas, desafiando-nos para que nosso legado, nossa trajetória, ultrapasse-a, deixando-nos imortais em vida. É uma imagem que deixamos, que nos tornamos. Já nos disse o filósofo Bachelard que “a morte é, em primeiro lugar, uma imagem, permanece uma imagem”. Que imagem queremos ser, em permanência?

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