A pandemia deve acender o lado humano da ciência e tecnologia

A pandemia do coronavírus demonstra o quanto a Ciência e a Tecnologia ainda estão divorciadas da realidade humana. E um exemplo surpreendente é o Vale do Silício em São Francisco (EUA), onde, conforme desabafa Peter Thiel, “a maior concentração de mentes arrogantes por metro quadrado e a obsessão por Tecnologia fizeram o destacado berço de empresas de Tecnologia deixar de lado o mais valioso: o ser humano”. Thiel, não é nada menos que o magnata que ajudou a fundar o PayPal e a construir o Facebook. Para ele, “o Vale está tomado por uma cultura tóxica”.

A professora Luciana Flor, graduada em Serviço Social e Pedagogia, mestre em Educação e doutora na área de Educação Científica e Tecnológica – que estuda as implicações sociais da Ciência e Tecnologia, observa que, independente do seu importante papel, a Ciência e da Tecnologia muitas vezes se mantêm distanciadas da realidade social e das questões humanas. “Vivemos o drama da desumanização das relações, das invenções, das pesquisas e até das cidades, principalmente as brasileiras, que muitas vezes são dominadas pelos vícios do poder e infectadas por ações político-partidárias”.

A professora Luciana Flor, que também é Analista de Projetos na Agência de Gestão, Desenvolvimento Científico, Tecnologia e Inovação (Agetec), da Unisul, espera que a inimaginável crise desencadeada pela pandemia desperte nas instituições públicas e privadas, no setor produtivo e na própria sociedade, a necessária preocupação com as questões sociais e humanas. Segundo dados da ONU, mais de 800 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza no mundo, com menos de R$ 8 reais por dia e isso sem dúvida, comprova a desigualdade. O mundo está um caos, mas talvez estejamos vivendo, ainda que a duras penas, uma oportunidade de mudar nosso posicionamento sobre o que realmente importa”, aposta.

Ao lembrar Vargas Llosa, autor que suscita a dúvida “se as universidades são centros de formação cultural ou apenas produtoras de mão de obra”, Luciana Flor levanta a preocupação sobre a mercantilização da Ciência e Tecnologia em tempos de pandemia.

“Não são riscos menores à sobrevivência humana a possibilidade de um acidente atômico, a degradação do meio ambiente, a escassez de água ou a pavorosa miséria de milhões de seres humanos. A pandemia só veio confirmar que a preocupação da Ciência e da Tecnologia, assim como de outros setores e atores, precisa ser maior e abranger todos os grandes desafios deste século, ou como diria Walter Bazzo – pesquisador e autor de vários livros sobre Educação Tecnológica –  todas as variáveis da equação civilizatória contemporânea”, explica.

Ao lembrar o sociólogo Zygmund Bauman, teórico da “sociedade líquida”, a professora da Unisul mostrar que o sujeito pós-moderno não tem mais referencial para construir a sua vida, ficando assim vulnerável aos ditames do mercado e sujeitando-se, enquanto consumidor, às regras de uma sociedade econômica onde a meta é aniquilar o concorrente.  Desta forma – acentua – “é essencial a reconstrução do mundo humanizado, para que paremos de sofrer as ameaças criadas por nós mesmos”. Na modernidade líquida, referenciada por Bauman, tudo parece fluido. E, na busca do prazer a qualquer custo nós nos tornamos os objetos. Pois bem, a pandemia mostra agora o necessário confinamento dos “objetos”.

Luciana Flor ainda afirma que “a Ciência e a Tecnologia são fundamentais à necessária transformação, para que o mundo alcance a consciência do valor humano e não acelere ainda mais o ritmo de sua própria destruição. Mas, pondera que “tudo e todos estão com os nervos à flor da pele: acertando, errando e até misturando equivocadamente, ciência, religião e política. Quando se fala em COVID-19 é necessário ter o cuidado para não gerar ainda mais o caos.  Há muitas variáveis nesta questão que precisam ser analisadas e que podem repercutir equivocadamente.

A professora ressalta que as universidades estão “dando o sangue” em pesquisas sobre o coronavírus, “seus desdobramentos e impactos; o poder público está se mexendo, enquanto a economia teve que se render à proteção ao ser humano, mesmo esboçando às vezes, contrariedade. Assim, o momento é de cautela e de reinvenção, motivo pelo qual não podemos deixar de aprender com a crise, conclui.

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