Mãe e doula se conectam antes mesmo do trabalho de parto

A relação entre a doula e gestante envolve o suporte físico e emocional durante o trabalho de parto e começa antes mesmo das contrações. Ana Paula Kovalski conheceu a profissão ainda no estágio e foi amor à primeira vista.

Tudo começou quando Ana Paula, em fase do estágio em Fisioterapia da Mulher, entrou no centro obstétrico para acompanhar uma parturiente em trabalho de parto.

“Naquele instante soube que era ali que queria estar! Mas vi muitas coisas estranhas, que não faziam muito sentido na assistência e fui pesquisar mais sobre o assunto. Aí conheci o mundo das doulas, que mais que acompanhantes de parto exercem um papel político em defesa do parto humanizado. Ser doula me aproximou do mundo da obstetrícia”.

Para Ana Paula, que se tornou doula antes mesmo de concluir a graduação em Fisioterapia na Unisul, trabalhar com parto é viver momentos de alta intensidade e também de lidar com imprevistos porque nem sempre é possível seguir o que foi planejado. “O que mais me marcou foi ver uma bebê ainda no canal vaginal, apenas com a cabeça para fora e os olhos bem abertos no primeiro expulsivo que acompanhei, ainda no estágio que comentei lá em cima, pois nunca achei que bebês abriam os olhos nas primeiras horas de vida. Como eu era ignorante”, diz aos risos.

O atendimento começa logo no primeiro contato quando Ana Paula questiona os pais sobre suas expectativas e o entendimento do parto humanizado para prestar os esclarecimentos e entender a real necessidade. Sua filosofia é individualizar e personalizar cada parto porque as famílias já têm a sua conexão. Entretanto essa relação requer muita confiança na doula no serviço oferecido.

“Geralmente a gestante entra em contato e começamos a negociar valores e se rola o feeling dela comigo pois o mais importante deste acompanhamento é a segurança que elas devem ter em mim. Atualmente com a Lei das Doulas, entro nos hospitais para acompanhá-las no trabalho de parto, além de fazer encontros pré-parto para orientar e planejar o parto”, explica.

A assistência se dá a partir do momento das primeiras contrações que passam a ser monitoradas, porque muitas vezes demora até que o parto aconteça. “É um trabalho bem complexo e nós doulas ficamos de plantão pela 37ª semana. Então como a qualquer momento as contrações podem começar, já ficamos a postos. Vamos monitorando as contrações até o instante de estar junto da gestante de fato, prestando todo o apoio e orientações para que o parto aconteça da melhor maneira e plena possível”, diz Ana Paula.

Durante o trabalho de parto a mulher sente muita dor e também é um momento de muito riso, fala. “Enfim, é uma mistura de sentimentos mesmo que o cansaço esteja presente porque a gestante não está preparada e acontece de pedirem a indicação para a cessaria. Nem todo parto que a doula acompanha termina em parto normal e isso depende da condição e da escolha da mulher”.

No entanto, muitas pessoas associem a doula ao parto normal e isso não é verdade. Durante o trabalho de parto algumas mulheres descobrem algumas crenças e sentimentos que as bloqueiam e por não estarem preparadas para esse momento, pedem pela cesariana diz Ana Paula. “As gestantes estão cientes desse recurso e a doula está ali para lembrar do objetivo de passar por esse momento, o que acontece por causa da doula. Estamos ali para relembrá-la do motivo de essa mãe estar ali”.

A cesariana pode ser escolhida pela gestante ou indicado pelo médico obstetra que detém todo o conhecimento dessa condição. “Nós doulas não somos contra a cesárea e muitas pessoas não entendem isso. Somos contra a ‘desnecesárea’ que são impostas, empurrada para a mulher. Essa decisão é da mulher”, justifica.

Depois de encontrar-se e com a experiência adquirida ao longo desses anos, Ana defende com muito orgulho sua profissão.

“Ser doula é um ato político para mim, é o meu lado ativista em ação, é me ver em cada bebê que nasce de forma respeitosa e amorosa, é me colocar à disposição da humanização e brigar por ela, se for preciso”.

Qualquer pessoa pode ser doula, porém deve fazer cursos livres de capacitação. “Como não existe uma profissionalização da categoria a pessoa que deseja ser doula pode realizar o curso. A doula é considerada a pessoa treinada para acompanhar parto. Mas logo isso vai mudar, as organizações que mediam esta situação já anunciaram que logo doula será uma profissão, portanto serão cursos com horas a serem cumpridas. Não precisa ser da área de saúde. Existem cursos livres oferecidos por enfermeiras obstétricas, médicos obstetras e outras doulas. Geralmente os cursos são de 40 horas, mas já existem cursos de 120 horas ou até mais”, contextualiza Ana Paula.

O que é doula?

A doula não realiza qualquer procedimento invasivo como exame de toque ou administração de medicamentos. A doula oferece o suporte físico e emocional àquela gestante em trabalho de parto, mas não é parteira, nem enfermeira e muito menos, substitui a presença do pai.