Crônica – O Caipira, pai de aluna

                                    RITA CAIEIRA

Um senhor de aparência sertaneja ingressou no SAIAC sem esconder aflição. Queria informações sobre a sua filha, aluna de Medicina. Diante do coordenador, não mediu espaço para o dedo em riste ajudá-lo a impor autoridade paterna. Os intermitentes pedidos de “calma” do Coordenador não foram suficientes para abrandar o ímpeto do caipira, que conseguia até esconder parte da barba sob o chapéu de aba larga.

Estava de relações cortadas com a filha, que morava com a mãe, sua ex-esposa. Ao captar sinais de causa da neurastenia, o coordenador não demorou a engrossar a voz e se impor com receita verbal.

– Por que o senhor não reata com a sua filha?
– Ela me odeia.
– Mas se o senhor escrever uma carta para ela, com certeza tudo vai mudar.
– Como? Só estudei até o terceiro ano, não sei nem pensar….

Espera aí, sugeriu o coordenador, que foi às pressas à sua sala e escreveu uma carta amorosa, capaz de reaproximar pai e filha.

Ao ouvir a leitura da carta, ele se emocionou e disse que enviaria a carta à filha,  e que não iria faltar à formatura, marcada para o sábado seguinte.

Decorridos cerca de uma semana, duas mulheres aparecem no SAIC para falar com o Coordenador de Medicina. Apresentaram-se como advogadas e lhe pediram para enviar dados acadêmicos de uma jovem, cujo nome entregaram-lhe por escrito.

Perplexo, o Coordenador retorna à sua sala para conferir o nome da aluna. “Claro, é ela, a filha do caipira”. Ele consultou a Assessoria Jurídica da Unisul, que rapidamente o advertiu: “Se o juiz pediu essas informações, precisas receber a petição e responder diretamente para ele”.

E, já meio encabrestado, o coordenador descobriu que o caipira só poderia ser um ator teatral. Esperneou, chorou, abraçou e beijou o Coordenador só para estar ciente de que a filha iria se formar e que ele se livraria do pagamento da pensão mensal.

O Dr. João se julgou, como diz o mané da Ilha, “um tanso”, ao se deixar enganar por um falso caipira. Mas não perdeu o espírito de paizão, que faz parte da missão diária de um coordenador.

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