Doutor em educação reflete sobre os desafios da escola para o futuro

Ao pesquisar a história da educação encontra-se um acervo rico em exemplos sobre o surgimento da instituição escolar e sua função de “domesticar” corpos das crianças de classes populares e processos de sociabilização baseados em uma rígida disciplina, necessária às atividades econômicas.

Em resumo, a função da escola era criar corpos dóceis e úteis para o mundo do trabalho. Do surgimento da escola até 2018, as dinâmicas sociais mudaram, o jeito de aprender mudou e suas formas foram ampliadas com as mídias e tecnologias digitais, a própria concepção de infância e adolescência foi modificada.

Temos um acúmulo teórico bastante grande sobre essas questões. Mas, em detrimento das teorias e pesquisas educacionais das últimas cinco ou seis décadas, continuamos com a mesma lógica de que organismos multilaterais, de cunho econômico e financeiro, ditem as regras do que se entende por educação e função da escola, como é o caso do último relatório do Fórum Mundial da Educação para 2030.

Os casos de maiores êxitos educacionais que encontramos são os que menos seguem as cartilhas da UNESCO, OCDE e Banco Mundial, atualmente os maiores formuladores de visões de futuro para a escola.

Nesse contexto, pode-se afirmar que o enfrentamento aos desafios da escola não nasce dentro dela, mas nas políticas sociais. A questão crítica é: como países periféricos da economia conseguiriam chegar próximo a modelos exitosos de escola, existentes em países do norte da Europa? A resposta é política, passa pela prioridade política da educação e por investimentos públicos.

Quando se fala em termos de Brasil, os principais desafios da escola nos dias de hoje são decorrentes de problemas que não são gerados dentro das escolas, mas fora delas.

Isso se deve ao próprio momento político e econômico que o país vive, mas também como resultado de uma precarização estrutural da educação no que se refere à falta de valorização e remuneração dos professores e professoras, políticas de formação docente nem sempre eficientes e políticas educacionais que não estão sendo pensadas por educadores, mas por políticos.

Esse conjunto de fatores, mais cedo ou mais tarde, repercute no “chão da escola”, reproduzindo uma dinâmica que as teorias educacionais evidenciam há pelo menos 50 anos, e para a qual as soluções políticas, no mais das vezes, são sinalizadas apenas nos discursos dos políticos, e não na vontade política para sua efetivação.

Podemos elencar uma série de fatores nesse sentido:

Um deles, o esvaziamento do Fórum Nacional da Educação ou a exclusão de entidades como a ANPED – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação – da discussão sobre as políticas para a Educação Básica.

A clara inviabilidade financeira para atingir-se as metas do Plano Nacional de Educação, dados os cortes ou congelamentos de investimentos públicos, aprovado em 2016. Alguns retrocessos no chamado “novo Ensino Médio”, que esvazia uma formação mais integral das crianças e adolescentes, sobretudo na escola pública. São todas decisões políticas, pensadas de cima para baixo, e que chegam à diversidade das escolas brasileiras sem dialogar com elas e com as suas necessidades.

Outro aspecto que se constitui como desafio para a escola brasileira, hoje, é a identificação de uma espécie de patrulhamento ideológico, desprovido de qualquer argumento científico, sob a forma de variados projetos de “escola sem partido”. Há inúmeros casos de pessoas estranhas à escola, inclusive políticos, que vão “vigiar” o trabalho dos professores, algo que não se via desde o regime militar. Além do desrespeito ao profissional, esse é um exemplo claro de desprestígio e desvalorização dos professores: em que outra atividade profissional há um cerceamento da liberdade de exercer a profissão, praticado por alguém que nem é da área?

Por fim, podemos falar dos desafios para incluir no currículo escolar conteúdos e práticas que sejam coetâneas com o tempo presente e suas necessidades. As sociedades estão cada vez mais dinâmicas, no tocante às relações sociais.

Pluralidade, diversidade (em sentido amplo), inclusão, entre outros aspectos, são demandas que as próprias sociedades colocam à escola. Mas temos observado um empobrecimento do currículo escolar, cada vez mais voltado às dinâmicas pontuais do mercado de trabalho.

Como sabemos, o mercado altera suas demandas constantemente e a função social da escola não é, em primeira instância, atender a demandas do mundo do trabalho, mas sim formar integralmente os sujeitos de sociedades plurais, inclusive para existirem enquanto cidadãos de direitos nessas sociedades de mercados voláteis.

Não podemos balizar os processos de sociabilização dos sujeitos, a construção e a circulação de conhecimentos somente a partir do que o mercado de trabalho demanda. Isso é muito pouco. A formação humana extrapola o mundo do trabalho; e isso o movimento da Escola Nova já apontava na década de 1930: a necessidade de uma formação integral dos sujeitos e o desenvolvimento de todas as suas potencialidades humanas. No entanto, existe um gap entre os perfis de formação que as políticas educacionais ensejam – mesmo as mais bem-intencionadas – as condições estruturais mínimas para a consecução plena dessas políticas e as expectativas da sociedade para com a escola.

Novamente, o desafio passa pela vontade política dos governantes. A grande labuta das escolas, atualmente, é, nos limites e possibilidades de sua autonomia relativa em relação às políticas, tentar diminuir esses gaps.

  • texto de Rafael Cunha – Designer Instrucional e Doutor em Educação

 

 

 

 

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