Enem 2018: O preço de cada curtida nas redes sociais

Por Alexandre Lenzi, doutor em Jornalismo pela UFSC e professor dos cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda na Unisul de Tubarão

Cada curtida em um post nas redes sociais, cada novo comentário ou compartilhamento feito, cada quiz respondido, seja uma pesquisa mais séria ou até uma das brincadeiras do tipo “descubra que animal você seria…”, toda ação e reação na internet é em potencial uma forma de alguém saber mais sobre o perfil do usuário. E muita gente ainda não se deu conta disso.

Neste mês de novembro, o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”, o que evidencia a importância de refletir sobre o assunto. A questão merece ser avaliada principalmente entre os jovens, cada vez mais imersos em seus smartphones, baixando diferentes aplicativos e interagindo com canais sem nunca ler os contratos de letras miúdas.

Entre as consequências possíveis, a tal “manipulação” que aparece no tema da redação do Enem. O que pode se refletir em propagandas direcionadas para o seu perfil (quem nunca curtiu um post sobre determinado produto e passou semanas recebendo propagandas do bendito item, não é mesmo?), na venda de dados pessoais (para que empresas e/ou organizações conheçam melhor o perfil de determinado grupo) ou até mesmo na blindagem do usuário em uma espécie de bolha, com riscos reais de desinformação e até mesmo alienação.

O Facebook, a maior das redes sociais, por exemplo, no início deste ano mudou mais uma vez o seu algoritmo, que é, de forma simplificada, o que determina o que cada um vai visualizar ao acessar sua conta. Nesta mais recente mudança, jornais e canais oficiais de informação foram desprivilegiados e passou a ter mais evidência o que amigos e familiares postam, com a justificativa de “aproximar mais as pessoas”. Para inverter a situação, os jornais precisariam pagar para a empresa de Mark Zuckerberg e nem todos toparam isso.

Neste contexto, a tal bolha surge quando o usuário enxerga basicamente posts com ideias muito parecidas com a sua, sejam elas opiniões, embasadas ou não em fatos e pesquisas, ou até mesmo fake news escancaradas, informações falsas publicadas com claro objetivo de prejudicar alguém ou algum grupo em específico.

Tais perigos não justificam abandonar radicalmente tudo o que é rede social virtual, mas sim optar pelo uso com moderação. O importante é ter consciência de como elas realmente funcionam, sabendo que, sendo empresas, a busca pelo lucro vai aparecer mais cedo ou mais tarde, e de alguma forma você vai ajudar a pagar a conta.

Com a abundância de informações na sociedade contemporânea, é preciso estar atento e ser seletivo. Você pode se informar também pelas redes sociais, mas não só por meio delas. Nunca deve compartilhar post com mensagem duvidosa ou ambígua e, sempre que possível, acompanhar as publicações de jornais reconhecidamente comprometidos com uma informação verdadeira. E quando deparar-se com textos opinativos, ter disposição para exercitar a empatia e o debate construtivo. Não é fácil. Mas vamos precisar cada vez mais disso.