Guaranis, Unisul e Homo Serviens: soprando a brasa da solidariedade.

Por: Jaci Rocha Gonçalves
Projeto Revitalizando Culturas

Eram três casarões hexagonais, construídos pela UNISUL na virada do milênio, em 1999 com o povo guarani do litoral: um casarão para a Terra, outro para o Lua e outro para o Sol. Um casarão ficou para cuidados de saúde, outro a tempestade levou e este já está com o fogo sagrado aceso no mutirão da aldeia Itaty do Morro dos Cavalos para acolher 500 lideranças guarani vindas de toda América Latina.

A arquitetura é inspirada na colméia das abelhas, biblioteca natural dos sábios guarani mbyá, nhandeva e kaiowá.

Makelis Paim e Yu Tao auxiliando no mutirão da Aldeia Itaty

No mutirão entre os guaranis, estão misturados os professores da Unisul João Antolino Monteiro, com sua roda de voluntários, Yu Tao, os voluntários do Homo Serviens Makelis Paim e seu esposo, o jornalista Tabira Estevão, egressos da Unisul, na preparação do local e infraestrutura para a Assembléia Guarani YVYRUPÁ que ocorre do dia 19 à 24 de maio.

O tempo foi curto, nem parece verdade. Nesses 20 anos o sonho da união guarani se concretizou porque esse povo cuja esperança estava viva como brasa debaixo da cinza se reacendeu. As lideranças guarani têm mostrado resistência criativa e endocultural. Nós que vimos os primeiros corais guarani voltarem a cantar, dançar e causar impacto estético em nossos meios de comunicação catarinenses no final do século XX, ficamos admirados com a força de sua luta não-violenta.

Agora no século XXI, em pouquíssimo tempo, a resistência indígena, teimosa e criativa, se organizou nacionalmente em abril no Acampamento Terra Livre em Brasília para reivindicar seus direitos. Mostram-se hábeis no uso otimal do milagre da internet pelo whatsapp. A Assembléia YVYRUPÁ reúne cerca de 500 lideranças guarani para cantarem seus mantras e fortalecerem sua união guarani de toda a América Latina.

É na Montanha Sagrada Guarani que eles renovarão suas energias e união, contemplando o oceano onde moram seus ancestrais. O povo guarani sempre buscou o YVYMARAE-Y, a Terra Sem Males e nos dá uma lição de responsabilidade na arte de dialogar neste momento de pavio curto e tendências à desagregação e extremismos.

Hora de reaprender a força da palavra capaz de reacender o fogo do amor, que está também entre os não indígenas como brasa debaixo das cinzas.

As lideranças guarani, no alto do morro, onde foi sepultado há poucos anos o grande líder Adão Karaí Tataendy, podem olhar de novo para o oceano, retomando antigas tradições e, sobretudo, seu perfil ético de povo das divinas palavras plantando desde aqui uma Terra Sem Males, nome que inspira o tema-foco da Assembléia Guarani YVYRUPÁ.