Memórias da escravidão

  • por Guilherme Araujo Silva

Hoje Santa Catarina também comemora a abolição da escravatura. Mas, diferentemente do Rio de Janeiro e outros estados, nos quais a memória da escravidão é mantida em parques, placas de rua, obras de arte e museus, aqui em Santa Catarina, sofremos com a política do esquecimento, termo cunhado pela pesquisadora da UFRGS, Freda Indursky, não havendo muita menção com relação a essa existência, silenciando sentidos relacionados.

Sim, caro leitor, a escravidão existiu em Santa Catarina. Os negros principalmente nas cidades do litoral e de Lages, foram fundamentais nas plantações, criações de gado, transporte marítimo, plantações, comércio, na construção de estradas, sobrados, igrejas, até mesmo palácios e isso não pode ser esquecido. Sendo assim, compartilho algumas memórias importantes no intuito de não deixar que esse passado se apague.

A pouca quantidade de negros existentes no Estado nos dias de hoje não é evidência de uma escravidão mais branda, muito pelo contrário. Por aqui, os negros que foram forçados à escravidão, eram vendidos em praça pública e sofreram torturas no tronco, no vira-mundo, perseguidos, queimados, estuprados, deformados e até mesmo decepados, tudo para satisfazer, conforme escreveu Saint-Hillaire no século XVIII, o indolente imigrante Europeu que preferia o ócio ao trabalho pesado.

De acordo com Charles Van Lede, no início do século XIX havia 1,9 pessoas brancas para cada pessoa negra no estado, uma proporção muito maior do que nos dias de hoje.

Não podemos esquecer que a escravidão também se fez com resistência. Por aqui existiram quilombos, e isso, fica evidente em documentos, jornais e livros históricos. A Lagoa (quilombo Alagoa) e a Enseada de Brito foram grandes núcleos de resistência e houve grande comoção do Estado em combatê-los.

As fugas foram constantes durante toda a escravidão, tanto para as regiões dos morros quanto do continente. E essas regiões também compreenderam/compreendem importantes centros de resistência da população negra (Morro do Mocotó, Palhoça etc.)

Lembramos que atrás do Hospital de Caridade, região que hoje é de mata fechada – atual Cabeça de Santo – havia um Cemitério de Escravos, sendo que muitos dos antepassados dos negros catarinenses estão enterrados por lá.

A escravidão em Santa Catarina iniciou com a colonização. Fernando Henrique Cardoso, que pesquisou sobre o negro do Desterro, aventou a hipótese de que havia negros na comitiva de Francisco Dias Velho (fundador de Florianópolis).

Muitas famílias abastadas se beneficiaram do fundo de manumissão criado pelo Estado para pagar alforrias, tornando o processo pré abolição muito rentável.

Cruz e Sousa, possivelmente, só se tornou poeta simbolista, por conta dos esforços de seus pais – Eva e Guilherme. De acordo com Maria Elizabete Espíndola, foi seu Pai, que havia ganho a liberdade após lutar na Guerra do Paraguai e conseguiu bolsas para que ele estudasse em bons colégios da capital.

Santa Catarina possui quilombos e lembramos alguns de fundadores, que ainda hoje são símbolos da resistência negra no Estado, alvos de grande admiração por grande parte dos pesquisadores: Manoel e Avelina Felipe (da Toca – Paulo Lopes), Fortunato Justino Machado e Luisa Cristina da Conceição (Morro do Fortunato), Vidal Martins (Vidal Martins – Florianópolis), entre outros.

Todos esses fatos servem para não cairmos nas armadilhas do esquecimento e da diminuição dos efeitos relacionados à escravidão do negro. Sim, muitos dos nossos antepassados foram vítimas e nós precisamos compartilhar essa história constantemente para que a mesma não se repita.

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