O que é afinal a pedagogia?

Em 20 de maio é comemorado o dia do Pedagogo

Inicialmente, trago um grande autor, brasileiro, José Carlos Libâneo. Segundo ele, relacionar a pedagogia à formação de professores que atuam com crianças, como muitos pensam, é uma ideia muito simplista. De fato, os professores que atuam nas primeiras etapas da Educação Básica, educação infantil e séries iniciais, são formados em Cursos de Pedagogia e cabe a esses professores estudar os processos educativos, os métodos de ensinar, mas não é só isso, a pedagogia tem um significado bem mais amplo e globalizante. Nesse sentido, Pedagogia é a ciência da e para a educação. É o campo do conhecimento que se ocupa do estudo sistemático da educação, da prática educativa como componente integrante da atividade humana, como fato da vida social, inerente ao conjunto dos processos sociais. Não há sociedade sem práticas educativas.

A tarefa primordial do pedagogo é a de discutir/refletir e organizar as condições para que o ensino passa realizar-se de maneira adequada.  Assim, a pedagogia não está somente na formação do professor de educação infantil e fundamental, perpassa a formação de todos os professores, das diferentes áreas que precisam se apropriar de conhecimentos pedagógicos na organização de sua prática.

Para o estudante do Curso de Pedagogia da Unisul, Jonas Daniel do Amaral Pinto, Pedagogia é uma área da educação muito ampla, não se trata somente da área de Ed. Infantil, ela abrange para outras áreas. Ela não somente nos torna professores, ela nos torna parte da vida de muitos estudantes e da educação como um todo.  Uma das mais importantes profissões exige sensibilidade, gostar de ajudar o próximo, pois sem isso, não conseguimos ensinar com amor.

Nesse contexto, podemos entender que antes de constituir-se como ciência, a pedagogia se estabelece como prática social para organizar a educação em determinado tempo e espaço, buscando, a cada momento, compreender e transformar as práticas educativas, de forma que atinjam as finalidades estabelecidas. Essas reflexões devem ser mediadas por perguntas que garantam a eticidade dessa ação: a intervenção que propomos vai produzir transformações em que direção? Vai beneficiar quem? Vai servir para quê? Para quem?

Temos, então, na atualidade, em tempos de pandemia, um desafio enorme para a PEDAGOGIA.  

Quais seriam as contribuições da Pedagogia para a prática docente em tempos de pandemia?

Para responder a essas questões, procurei escutar algumas vozes que, nesse momento, estão diretamente relacionadas e que precisam estar muito articuladas e vinculadas, são as vozes dos professores, dos estudantes e das famílias. Penso que esse é o tempo de aprender sobre o que de fato é importante à educação. Não tivemos tempo para pensar, num belo dia nós acordamos com a ordem de agora é tudo remoto. Há um esforço de todos para exercer essa função social de estarmos conectados enquanto escola, no entanto, é preciso pensar sobre o que é importante, o que é essencial para que os estudantes tenham conhecimento. O tempo de ensino e aprendizagem é diferente. O que nos move é o desafio do conhecimento e não do tempo. Dessa forma, os desafios são outros. Os meios de ensinar também, repetir mais do mesmo não é o caminho.  As aulas remotas são um recurso, contudo o método é o grande desafio.  Assim, não é a quantidade de conteúdos que vale, todavia a proposição que fazemos.  

Outro aspecto que precisamos pensar são as diferentes realidades. Afinal, muitas crianças e jovens não têm acesso aos meios virtuais, há pais que possuem dificuldades em ensinar, entre outras coisas. Dois depoimentos de mães nos fazem pensar sobre o assunto a partir das famílias.

Ana Paula, mãe de estudante do primeiro ano do ensino fundamental da rede estadual, menciona: Tem sido um desafio prazeroso, Luiz é dedicado e adora aprender então está sendo muito bom. Eu adoro ver o desenvolvimento dele faço vários vídeos, temos a nossa rotina de estudos dia a dia após o almoço. Também a professora dele é muito dedicada explica tudo muito bem e prepara tudo com muito carinho.

Carla, mãe de dois estudantes na rede privada de ensino, diz:Acho que não se trata de uma simples migração do presencial para o virtual. A escola não pode estar indiferente ao que acontece e as implicações no ensinar e aprender. Me pergunto como mãe: que tipo de conhecimento meus filhos precisarão? Ou precisam neste momento? Particularmente acho que o a escola neste momento de transição pode ser o espaço de não isolamento, de contato, mas não vejo sentido em se priorizar qualidade de conteúdos e avaliações.

Duas falas que remeteriam a tantas reflexões. O encontro entre pais e filhos e escola. A rotina da família que teve de ser reorganizada, sobretudo, chama-me atenção o questionamento sobre a legitimidade daquilo que ensinamos, o modo como fazemos e como avaliamos.

Diante de tudo isso que estamos a viver, teremos de ter, também, uma mudança profunda nas relações educacionais: a escola vai ter que incorporar novas formas de conviver e de produzir conhecimento. Segundo César Coll (2020), “A escola que deve nascer destas cinzas tem que ser crítica, sustentável, permeada por relações humanas adequadas”. Desse modo, é necessário nos interrogar sobre a importância de cada um dos saberes e conteúdos repassados.

Escutamos, ainda, alguns professores, e, para esses, tudo tem sido um grande desafio.

Segundo a professora Ana: Estamos vivendo um período marcado por medos e incertezas e nossa profissão precisou reinventar-se. Segundo as Diretrizes para a Educação Infantil, a função dessa etapa é educar e cuidar em complementaridade às famílias. Portanto, nunca tivemos uma oportunidade tão rica do encontro entre as famílias. Mas é necessário enfatizar que não podemos criar uma formalidade para esse encontro, ou seja, a finalidade não é “transformar” os pais em pedagogos.

Para a professora Marlei: Ensinar, nestes tempos de pandemia, tem sido um desafio. São muitas atribuições ao professor que tem que se reinventar a cada dia. Auxiliar os alunos a distância, muitas vezes, não é tarefa fácil. Gera insegurança se realmente houve aprendizagem. É necessário repensar nossas práticas com o que realmente faz sentido no processo ensino-aprendizagem.

Inquietação, medo, insegurança concorrem com a cobrança urgente da reinvenção. O que seria esse novo normal que nos cobram a todo instante? Não é simplesmente mais do mesmo. Reinventar-se exige pensar em novas proposições, porém, talvez, isso exija decisões mais políticas.

Para os estudantes e professores dos Cursos de Pedagogia, os enfrentamentos também têm sido enormes. Paula, estudante do Curso de Pedagogia/Unisul argumenta: “Não ter o contato direto com as crianças é muito difícil, nós, enquanto pedagogos, necessitamos desse contato, então, neste momento de isolamento, é um grande desafio.”

Segundo Tonnucci, estudioso Italiano, temos de aproveitar a riqueza do momento, a casa, a família, a disponibilidade dos pais. Estamos a propor atividades para estudantes que estão confinados em casa, num tempo de pandemia. Ao invés de enchê-los de conteúdos sem sentido, precisamos pensar e propor experiências mais significativas e provocar o gosto por aprender e ter autonomia para isso. Provoca, ainda, o autor sobre as proposições da escola e o compromisso das famílias em relação às crianças estudantes:

Normalmente o tempo que passam com elas é para acompanhá-las em atividades e não para viver com elas. Outra proposta é que brinquem, isso é o mais importante. Que inventem brincadeiras. Ligar aos avós para que aconselhem brincadeiras, eles foram crianças quando era preciso inventá-las. (TONNUCCI, 2020).

Finalizo com a fala de uma criança, num vídeo que viralizou nas redes sociais: “Sem professora eu não consigo aprender bem.” Por isso mesmo, aproveitemos para pensar se outra escola é possível.

Mariléia Mendes Goulart – Mestre em Educação. Coordenadora dos Curso de Licenciatura em História, Geografia e Pedagogia da Unisul.

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