Os desastres e os episódios políticos

A morte de Teori Zavascki, ontem em acidente aéreo no Rio de Janeiro, levanta novamente a discussão entre fatalidade e as coincidências que provocam suspeitas de atentado.

Em 1958, cerca de 10 meses após ter deixado o cargo de ministro da Justiça do governo de Juscelino Kubitschek, o senador Nereu Ramos morre em acidente aéreo no Paraná, juntamente com o governador Jorge Lacerda e o deputado federal Leoberto Leal. Nereu deixara o ministério ao ver frustrada a sua intenção de realizar uma reforma constitucional. No alvoroço jornalístico diante de episódios políticos envolvendo PSD e UDN (que tentou até a impedir a posse de JK), surge a hipótese de atentado no acidente aéreo. Contudo, o jornalista do jornal O Estado do Paraná, Osmar Zimmermann, o primeiro a chegar ao local do acidente, “sequestra” um dos sobreviventes, Orestes José de Sousa, de Curitibanos (SC), e desvenda, logo de início, o mistério do desastre, publicando longa entrevista com o sobrevivente, que detalha o momento da queda da aeronave da Cruzeiro do Sul.

Em agosto de 1976, o ex-presidente Juscelino Kubitschek morre em acidente na rodovia Presidente Dutra. Suspeita-se que teria sido um atentado provocado pela ditadura militar, em função de o seu motorista Geraldo ter uma perfuração no crânio. Mas a Comissão Nacional da Verdade concluiu que a causa foi o ônibus da Cometa, que atravessara na outra pista.

Um acidente que continua envolvido em mistério foi o que matou o marechal Castelo Branco, que retornava de uma visita à sua amiga e escritora Raquel de Queiróz, em Quixadá, no Ceará. O pequeno avião Piper Aztec já estava próximo a Fortaleza quando foi atingido por um jato da FAB, em pleno dia de céu de brigadeiro. O jato bateu no Piper Aztec com a sua asa direita, justamente a que estava com tanque de combustível vazio. Mas a FAB, em plena ditadura, considerou apenas um acidente normal. Lembra-se que Castelo Branco defendia a devolução imediata do poder institucional aos civis.

E o acidente de Teori Zavascki?

Tudo indica que foi um acidente, como o que ocorreu em 1992 com um helicóptero, também no Rio de Janeiro, em que morreu o líder do PMDB, Ulysses Guimarães, cujo corpo não foi encontrado até hoje. Contudo, são os episódios políticos que anuviam os acidentes e que acabam pipocando a teoria da conspiração.
Zavascki, um ministro técnico, respaldava a operação Lava Jato, que começou a envolver políticos de executivo e legislativo, como Temer, Renan….

A sua morte pode deflagrar o processo de desmonte da Lava Jato?

É necessário compreender que a sociedade acompanha, de ouvidos aguçados e olhos bem abertos, a operação e qualquer nome suspeito para substituir Zavascki será torpedeado. Contudo, o poder político brasileiro sabe maquiar a realidade e trabalhar com a amnésia brasileira. O ministro Gilmar Mendes, presidente do TSE e relator do processo que analisa se os processos envolvendo Dilma e Temer devem ser desmembrados ou não, viajou, na maior cara de pau, no avião do presidente da República a Portugal. Da mesma forma, o ministro Tóffoli foi flagrado em um casamento na Itália, cujo noivo responde a um processo no Brasil, cujo relato é do próprio ministro.

Entre a fatalidade e a conspiração, eu diria que a república brasileira não é séria suficiente para os cidadãos terem alguma convicção.

Texto: Professor Laudelino José Sardá

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