Pregar peça e trollar: reflexões sobre um imaginário atualizado

Pela Prof. Dra. Heloísa Juncklaus Preis Moraes, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem (PPGCL) da Unisul

Em primeiro de abril “comemoramos” o Dia da Mentira. E esta prática cultural permite uma discussão sobre o imaginário social e as representações simbólicas que modulam o nosso cotidiano. Quem de nós, ainda que quando criança, não “pregou uma peça” em alguém por ser o dia da mentira? Hoje, a prática parece incorporar o cotidiano, especialmente infantojuvenil, para além da data especial. Em nossas pesquisas com este público, identificamos a força de um imaginário popular, atuante, mobilizador, aglutinador, barulhento, arquetipicamente ligado à imagem do Bobo da Corte.

Claramente percebemos as relações entre a ética da estética e o imaginário infanto-juvenil contemporâneo ligado aos youtubers como espírito do tempo pertencente à bacia semântica da pós-modernidade: uma cultura emergente do culto a esses personagens/personalidades, como espírito do tempo contemporâneo. Trollar é a atualização do pregar uma peça. Primeiro de abril continua fazendo sentido, mas se expande para qualquer tempo e espaço.

O arquétipo do Bobo da Corte inspira a diversão. O desejo básico é ser espontâneo e recuperar aquele espírito brincalhão que todos nós tínhamos quando éramos pequenos. O arquétipo do Bobo, imagem primordial com potencial para ser simbolizada, nos ajuda a viver a vida no presente e nos permite ser impulsivos e espontâneos. Descontração é a sua marca. Seja nas figuras idolatradas dos canais no YouTube, que disputam a atenção do público oferecendo desafios e trollagens, ou, historicamente pelos “bobos de abril”. Estes continuaram comemorando o Ano Novo em primeiro de abril, mesmo depois de o Rei Carlos IX, na França, em 1564, instituir o calendário gregoriano que passava a comemorar o Ano Novo em primeiro de janeiro. As peças e zombarias que deram início à data começaram, acredita-se, aí.

Na atualização simbólica destas imagens de identificação e projeção que funcionam como uma intimação do meio social, entende-se   que   é   a   alegria   do envolvimento   que   fornece   sentido   à   vivência   cotidiana.   Os youtubers, assim, transformam-se em heróis sem espadas e lanças, sem força e poderes surreais, mas com a imensa capacidade de conectar os indivíduos.  Este é um dos fatores que os torna especiais ao público infanto-juvenil, devido ao fato de serem pessoas comuns, com emoções reais e capazes de realizar um feito mítico neste novo mundo: criarem um universo conectado ao seu redor, de maneira espontânea, descompromissada e cheios de ideias sedutoras de hedonismo e diversão.

Conexão universal que acaba criando novos padrões de consumo, de estética, de linguagem, de posicionamento social, de uso do tempo, de busca de conteúdo e de práticas culturais. Enfim, lançam imagem a ser curtida e compartilhada e, ainda mais, projetada em si mesmo, moldando o cotidiano infanto-juvenil. A trollagem, encarada como “brincadeira”, tira a exigência moral da verdade.  A diferença é que se tinha permissão para mentir um dia no ano, em primeiro de abril. Nos demais, a imagem do Pinóquio e seu nariz crescente, tão presente no imaginário infantil, lançava pelas vias da narrativa, uma moral.

O imaginário, conforme a perspectiva da antropologia do imaginário, é a matéria prima do espírito e sua expressão se dá pela imaginação criadora: dinamismo organizador de toda representação. É na dimensão cultural que estão inseridas as práticas simbólicas que organizam o real e conformam o imaginário de determinado grupo e vão se atualizando, ainda que mantenham uma conexão ancestral. Pregar peça e trollar fazem parte de uma mesma atitude imaginativa, mas que ganha ainda mais pregnância simbólica pelos estímulos de imagem interpelantes culturalmente. Cuidado para não ser “trollado”, hoje ou qualquer outro dia!

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