Para professor da UFSC, jornalismo vive crises financeira, de identidade e de posicionamento

No segundo dia do 14° Encontro da SBPJor, os alunos do curso de Jornalismo entrevistaram o doutor em ciências da comunicação e professor do departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Rogério Christofoletti. Christofoletti participou na manhã desta quinta-feira, 10, da mesa de debate ‘Jornalismo hoje: Potências, silêncios e censuras’.

Os alunos da Unisul questionaram o professor sobre os desafios e potencialidades do jornalismo atualmente.

COMUNICA UNISUL – A democratização dos meios de comunicação digitais evidenciou a crise no modelo de jornalismo? O que existe de ultrapassado no jornalismo de hoje?

Rogério Christofoletti – O jornalismo passa por diversas crises. Uma é de sustentabilidade financeira, outra relacionada à própria identidade e como ele se posiciona na sociedade. Tem uma terceira também, que é de como ele dialoga com os públicos. Nesse sentido, as mídias sociais conseguem fazer muitas vezes o que o jornalismo não consegue. Inicialmente as redações rechaçaram as redes sociais até perceberem que era impossível ignorar sua existência. Então passaram a se aproximar. Tanto que hoje a maioria dos veículos de jornalismo tem a suas redes sociais e tentam dialogar com o público. Só que isso ainda ocorre de maneira muito precária. As redes sociais trazem um elemento a mais na crise do jornalismo mais não são o único fator. O jornalismo precisa se reinventar, mas não pode abrir mão de seus preceitos éticos, de sua importância na sociedade nos papéis que ele deve cumprir.

COMUNICA UNISUL – Você mencionou hoje as falhas e a falta de profundidade da imprensa na cobertura do processo do impeachment da Presidente Dilma. Existe aí algum aspecto de censura? Há uma escolha de perfil político das grandes mídias?

Rogério Christofoletti – Eu lembro de uma fala da Judith Brito, da Folha de São Paulo, na época presidente da ANJ, ela afirmou algo mais ao menos assim: “os partidos de oposição no Brasil são muito fracos, então a imprensa tem que fazer o papel de oposição”. Isso é uma sinalização de como as organizações jornalísticas passam a ter um papel político. O que pode ser legítimo, desde que seja transparente, o que não é. Qual o slogan da Isto É? “Independente”. Independente do que? Do governo? Das verbas do governo? Dos grandes grupos, das grandes empreiteiras? Não é. É necessário que se enfrente uma questão chamada transparência. Os meios de comunicação querem ser transparentes? Se vamos ter um cenário semelhante ao que ocorre na Inglaterra e nos Estados Unidos, em que existem jornais que são de partidos políticos, você sabe o que está comprando. Quando você vai à banca e procura por exemplo a Caros Amigos você sabe o que está procurando, mas agora e os outros meios? Sabemos? Não sabemos.

COMUNICA UNISUL – Como você encara o crescimento, após 2013, de coletivos de jornalismo e da mídia alternativa no país?
Rogério Christofoletti – Acho maravilhoso, isso desacomoda o jornalismo.

COMUNICA UNISUL – Você acha que existe perspectiva de crescimento para deste tipo de mídia?

Rogério Christofoletti –Tomara que isso seja possível. Por enquanto são iniciativas muito pequenas, localizadas e que padecem da falta de dinheiro. Estou em um grupo de trabalho em Florianópolis que está tentando escrever um projeto de lei para tramitar na câmara municipal para que exista um dispositivo que garanta uma fatia da verba da publicidade oficial na prefeitura reservada para blogs, jornais comunitários, rádios comunitárias e mantenha este tipo de iniciativa.

COMUNICA UNISUL – A regulamentação da mídia poderia de alguma forma democratizar o jornalismo no Brasil?

Rogério Christofoletti – Nós precisamos ter um novo marco regulatório, novas regras. Precisamos ter uma conjugação de atores na sociedade que queira fazer isso. Nós tivemos oportunidade de fazer. Durante treze anos o PT esteve no poder, a democratização da mídia era uma bandeira do PT e ele não enfrentou o problema. A única coisa que o PT fez foi promover e realizar a conferencia Nacional de Comunicação. De lá extraímos mais de seiscentas teses. Nós temos um programa maravilhoso para implementar, que qualquer o governo pode implementar. Só que os governos não implementam. Falta vontade política.

Texto: Gustavo Neves
Foto: Douglas Heizen

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