Dia da Mulher: por trás do café, a mulher de passos acelerados

Helena Soares vive como o relógio, preocupada sempre em dar corda para o ponteiro nunca a surpreender com atraso no serviço, ou mesmo em tarefas domésticas. A passos largos e mãos firmes segurando garrafas de café, ela percorre o campus da Pedra Branca com os olhos no caminho, para nenhuma pedra desacelerá-la.

Mas no caminho de seus 33 anos de vida havia uma pedra. Como expressa Drummond de Andrade em seu poema, “na vida de minhas retinas tão fatigadas/Nunca esquecerei que no meio do caminho/Tinha uma pedra.

Seu pai Noel e a mãe Ormíria precisaram abandonar o serviço braçal em lavouras, no interior de Chapecó (SC), em busca de novas perspectivas de vida. Por anos, a família, de oito filhos, acomodou-se, com dificuldades extremas, em Palhoça, num barraco improvisado. O desafio de Noel partiu da convicção de que em Chapecó, onde moravam, as cinco filhas e dois meninos seguiriam o mesmo ritual de suor, como peões de fazenda. Suplantou as barreiras sociais, conseguindo emprego na Comcap, enquanto a esposa ocupava-se com faxinas na Grande Florianópolis.

Aos 15 anos, Helena não enxergava mais pedra no caminho, até que o coração da mãe Ormíria parou. “Doeu muito”, desabafa a menina, que se casou aos 16 anos, já “embuchada”, como denomina o mané açoriano a mulher grávida.

Negra, de identidade firme, de empatia que se irradia nos ambientes onde detalhes são ocultados pela velocidade de seus pés, Helena se abala com a discriminação racial. Não recorda, em sua infância no Oeste catarinense de atos de xenofobia que tenham magoado seus pais. “Mas aqui enfrentei muito preconceito, até de uma professora que me tratou mal”, revela. Seus filhos, hoje adolescentes, já têm uma convivência menos traumática, mas Helena vive anestesiada pela enxurrada de informações sobre discriminação racial no mundo inteiro, tanto na tevê quanto em redes sociais.

– Há duas razões para uma pessoa ser mau tratada. A primeira é a cor e a segunda problema mental ou outra doença. Por que não saber viver, olhar, abraçar uma pessoa, só porque é negra?, lamenta.

DRAMA CONTEMPORÂNEO

Helena, magra, de rosto fino, pela injunção de ser uma menina veloz, vive o drama do cotidiano mergulhado em dois mundos simultâneos: o real e o virtual. Faz de conta que não há outra pedra em seu caminho, mas não consegue imaginar uma explicação para os vácuos que alimentam o silêncio em sua casa.

– Ocupo-me com as tarefas domésticas, enquanto os filhos ficam em jogos e relacionamento pela internet. O meu marido Vanderlei chega, banha-se e vai jogar bola, resume Helena, como se precisasse também precipitar as palavras com os verbos no acelerador. A distância que silencia a residência não se difere da família moderna, mas ela se cala por entender que a mudez familiar é herança. “Até nossos pais nos viam muito pouco, pelo trabalho suado em lavouras”.

 As lembranças se resumem às dificuldades que se transformaram numa pedreira ao longo de sua vida. Contudo, não foge à sua memória o esforço da mãe de guardar dinheirinho e garantir presentes de aniversário e de natal para os filhos. “Por mais simples que fossem, o sorriso e abraços vinham antes e isso unia muito a família”, sorri Helena, com duas gotas de lágrimas.

Toda a mulher parece acolher o mesmo sonho: futuro para os filhos. “Que os três tenham bons empregos, não sofram com racismo e que sejam bem felizes”, torce a menina que encanta a Pedra Branca com seu sorriso lento e o corpo acima da velocidade normal.

Por Laudelino José Sardá
Jornalista e professor da Unisul

COMPARTILHAR