Falácias em tempos de Covid-19

Por Fabio Rauen, professor da graduação em Letras e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem (PPGCS) da Unisul

Em tempos de reclusão social, quando um mundo de medos e inseguranças parece desabar sobre nós, outra praga se espraia em nosso horizonte: declarações e argumentos falaciosos disseminados por ignorância ou má fé. Combatê-los é ato tão relevante quanto a linha de frente da guerra contra a Covid-19.

Assim como nossas pequenas ações de prevenção contra o contágio podem influir no limiar que separa a passagem segura dessa tempestade e o colapso de nosso sistema de saúde, ações de prevenção contra boatos ou Fake News cumprem função paralela. Podemos ser levados por crenças falsas muitas vezes insufladas por mentes perversas a demolir todo um conjunto de esforços diligentes de uma cadeia imensa de pessoas devotadas a superar a crise.

A questão que se impõe em tempos de boatos tão nefastos é como distinguir a verdade. Temos que admitir que reconhecer a verdade não é tarefa fácil por razões de infinitas ordens, inclusive epistemológicas, mas havemos de traçar uma linha de consenso segundo a qual há certas questões que, a despeito de nossas vontades e ideologias, são o que são. Entretanto, em tempos obscuros de terra plana, mesmo delimitar linhas como essas é muito complexo.

Apesar disso, boatos deixam algumas pistas, e uma possibilidade de observá-las, que obtemos da retórica (a arte de argumentar) e de lógica (a arte de pensar), é a de analisar sem paixões os fundamentos daquilo que vemos, ouvimos ou lemos. Para nos tornarmos mais vigilantes, uma estratégia prática pode ser a de converter qualquer informação que estamos processando em um argumento condicional do tipo “Se P, então Q” ou em uma construção explicativa do tipo “Q, porque P”, tal que “P” representa uma premissa com a qual se fundamenta uma conclusão e “Q” representa uma conclusão a que se chega em função da verdade da premissa ou que é justificada pela verdade dessa premissa.

Vejamos isso na prática, analisando uma declaração simples. Quando aplicamos as fórmulas “Se P, então Q” ou “Q, porque P” em afirmações simples do tipo “Cloroquina evita Covid-19”, percebemos imediatamente que ela não explicita seus fundamentos. Afinal, entre outras questões: De onde provém essa opinião isolada? Quais são as bases para esse juízo?

Todavia, convenhamos, uma afirmação como essa não emerge num vazio. Em teoria da relevância, distinguimos sentenças de enunciados, dizendo que enunciados são realizações concretas de sentenças com propriedades gramaticais que herdam das sentenças e com propriedades não gramaticais que herdam do contexto pragmático da enunciação e, desse contexto, propriedades do próprio enunciador.

Assim, nós não ouvimos ou lemos afirmações como “Cloroquina evita Covid-19” isoladamente, mas vemos, por exemplo, “Donald Trump dizer que cloroquina evita Covid-19” ou então ouvimos ou lemos o relato de que “Donald Trump disse que cloroquina evita Covid-19”. Essa constatação, audição ou leitura nos leva a crer que “Donald Trump crê que cloroquina evita Covid-19” e, ainda mais complexo, nos leva a crer que “cloroquina evita Covid-19”. Não sem motivo, em seguida, somos assaltados por notícias de escassez de cloroquina, porque várias pessoas, sem as devidas confirmações da ciência, adquiriram preventivamente o remédio para “evitar Covid-19”.

O que acontece aqui é o famoso “argumento de autoridade”, uma falácia bem conhecida na literatura segundo a qual uma declaração é verdadeira somente porque foi enunciada por uma autoridade. Aplicando as fórmulas “Se P, então Q” ou “Q, porque P” ao exemplo, temos: “Se Donald Trump disse que cloroquina evita Covid-19, então cloroquina evita Cobid-19” ou “Cloroquina evita Cobid-19, porque Donald Trump disse que cloroquina evita Covid-19”.

O problema é justamente esse. Somente porque “Donald Trump disse que cloroquina evita Cobid-19” o remédio tem essa propriedade? Somente porque “um suposto cientista de um país desconhecido” ou “o vizinho do primo do meu amigo” disse então algo se eleva ao estatuto de verdade? Destaque-se, apelar para supostos especialistas ou autoridades é uma estratégia eficiente de espalhar boatos, daí porque autoridades como Donald Trump deveriam ser mais responsáveis em relação ao impacto de suas opiniões públicas.

As mesmas fórmulas podem ser aplicadas em argumentos, um raciocínio com premissas e conclusões explícitas. Por exemplo, em “Devemos acabar com os radares, porque eles só servem para multar”, o argumento implícito é o de “Se radares só servem para multar, então devemos acabar com eles”.

Aqui, mais uma vez, devemos voltar nossas atenções aos fundamentos da conclusão, ou seja, por que motivo “devemos acabar com os radares”. Neste exemplo, a premissa do argumento sugere que que devemos acabar com eles porque “todos os radares servem apenas para multar”.

Mas, todos os radares servem, de fato, apenas para multar? Inclusive aqueles próximos de hospitais e escolas? Fácil de ver que esse argumento é uma falácia, um raciocínio falso que se disfarça como verdadeiro, pois há radares que inibem acidentes em áreas de fluxo de doentes ou crianças e, desse modo, não foram concebidos apenas para multar.

Em síntese, se o segredo de um mágico é fazer com que nós prestemos atenção à mão direita quando a mágica acontece na mão esquerda, o segredo de um boato é fazer nós prestarmos atenção à conclusão quando é na premissa que ocorre a falha, o erro ou o engano. O antídoto, em todos esses casos, é prestar atenção ao que a mão esquerda faz. Isso pode não ser suficiente para evitar o engodo, mas é uma ação necessária se quisermos ser mais vigilantes com relação às informações que processamos.

Fábio José Rauen

Doutor e Linguística, especialista em metodologia científica e docente dos cursos de graduação em Letras e de mestrado e doutorado em Ciências da Linguagem da Unisul.